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Artigo: Moral de Jegue

Por Lucas Nunes, advogado

Não conheço uma única pessoa que afirme ser a favor da corrupção. Sinceramente, não entendo como os ilícitos são praticados. Todos os cidadãos que conheço são absolutamente contrários ao cometimento de ilegalidades, com forte juízo de valor contrário a qualquer contraventor.

Os asnos são animais irracionais, movidos exclusivamente pelos instintos, conhecidos por serem capazes de grandes peripécias e por isso chamados de “treiteiros”. Com efeito, são destituídos de moralidade, portanto amorais, mas não podem, jamais, serem conceituados como imorais, contrários à moral.

Vivenciamos um dos momentos mais difíceis da humanidade, a população mundial vem sendo dizimada por um vírus letal e de grande transmissibilidade. A única arma com grande poder de eficácia contra essa pandemia é a vacina. Mas não há disponibilidade para todos e a luta por ser vacinado começa a separar os animais dotados de racionalidade e, principalmente de moralidade, dos movidos exclusivamente pelos instintos, sem moral e ainda de uma terceira classe, os contrários à moral.

Diante da escassez de vacinas, não há dúvidas de que se fez necessário estabelecer uma ordem de quem seriam os primeiros vacinados. É unânime que os profissionais de saúde eram as pessoas mais expostas ao vírus e indispensáveis ao seu enfrentamento. Portanto, deveriam ser prioritários. A ciência estabeleceu de maneira incontroversa que os idosos eram mais vulneráveis ao agravamento do quadro clinico, com maior possibilidade de óbito, sendo plenamente justificável que fossem vacinados prioritariamente.

Contudo, a estratégia que deveria otimizar a vacinação, apenas revelou a miserável condição humana. Não foram poucos os profissionais de saúde que não estão atuando e foram vacinados prioritariamente. Todos temos conhecimento de pessoas que não são profissionais de saúde e foram vacinados como se assim o fossem. São reiterados os casos de indivíduos que estavam e continuam atendendo exclusivamente por meio virtual e foram vacinados em grupo prioritário.

Certamente esses casos ocorreram pelo temor da contaminação, da morte e pela escassez de vacinas. Mas esse temor justificaria agir apenas pelo instinto? Justificaria tentar e efetivamente “furar a fila”?

Avançando a vacinação, ainda que em passos excessivamente lentos, chegamos ao grupo das comorbidades, e com eles a nova modalidade de burlar a razão de existir das prioridades, os atestados falsos. Não. Não é só uma “receitinha”, um “relatoriozinho”. É fraude.

Não bastassem todas as evidências de abandono da racionalidade e da moral, em prol do instinto de sobrevivência, nos deparamos com as tentativas de moralizar e normatizar a imoralidade, a inclusão absolutamente injustificável de grupos entre os prioritários, através de resoluções e normativas de autoridades sanitárias.

Até uma pedra pode constatar que atendentes de caixas de supermercado estão muito mais suscetíveis do que jornalistas, ou que atendentes de farmácia estão mais expostos ao risco do que estudantes de medicina em regime de aulas on line.

De outro lado, em que pese a primeira vítima da Covid-19 no Brasil tenha sido uma empregada doméstica, não vi nenhuma portaria, resolução, ou sequer solicitação de que tais profissionais fossem incluídos em grupo prioritário. Mas vi pedidos de reserva de vacinas por parte do STJ e do STF.

Verdadeiramente o caos da saúde pública do nosso país não é culpa dos políticos, por pior que seja o capitão mor da nação. A culpa não é do jegue. É da moral de jegue do povo brasileiro, que condena qualquer tipo de corrupção, mas vacina pouca, minha prioridade primeiro


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